Ama(dores) - Vitória Reis



Fonte: Google Images - GasTale ( https://aminoapps.com)


AMA(DORES) 

Vitória Reis*



Laura era uma menina certinha. Não tenho muito apreço por diminutivos, mas neste caso não há palavra que melhor defina quem era Laura. Cabelo preso, roupa bem passada e o dever de casa feito com antecedência. Sim era sim, não era não e talvez só existia aos domingos quando ela não queria ir à igreja com sua mãe.



A vida era fácil para Laura. Se era para estudar, estudava. Na hora de brincar, brincava. E se precisasse decidir, decidia. Mesmo que para isso tivesse que comer partes do doce da sua irmã também, porque ficou na dúvida entre duas sobremesas.



Não vou descrever as características físicas de Laura aqui porque ela pode ser você e aí vai ficar uma situação chata para mim, não é mesmo? Eu aqui falando da vida dos outros e você aí lendo sobre sua própria vida.



Mas garanto que era uma menina encantadora sim. Ela se achava nem muito bonita e nem extraordinariamente feia para sua pouca idade, mas preferia não comentar muito sobre isso com as pessoas, afinal, fazia questão de sempre ter algo mais interessante para falar.



*  



Em um dia, na hora de brincar, conheceu Pedro. Deste momento em diante, os dois se encontraram todos os dias no mesmo local e horário. Exceto quando Pedro não ia, ou queria brincar com outras crianças, e Laura era obrigada a seguir a brincadeira sozinha.



Este detalhe atrapalhava todo o cronograma de vida da Laura.



Obviamente ela era do tipo de pessoa que fazia cronogramas, tal como todas as certinhas. Mas nas ausências de Pedro precisava riscar onde estava escrito “brincar exclusivamente com Pedro” e reescrever qualquer coisa em cima. Laura odiava rasuras... Era um problemão!



Mas, ainda assim, gostava muito de Pedro. Ele não era muito de falar, mas ela não era muito de ouvir também. Então, os dois se encaixavam bem. Na maioria do tempo, apenas riam de qualquer detalhe e tudo estava certo, bem do jeito que ela gostava.



Depois disso se separavam e cada um ia para seu mundo. 

Descansavam e no dia seguinte se reencontravam na hora de brincar.



* 



No período da noite, não havia muito o que fazer. Laura apenas comia e esperava o tempo passar. Pensava e torcia para que o tempo passasse. Dormia com a certeza de que o tempo passaria. Era um tédio sem fim que só cessava quando Pedro e a hora da brincadeira surgiam no meio do dia novamente.



Mas, naquela noite, as coisas não estavam fazendo muito sentido.



O vento lá fora tocava as árvores e fazia com que elas brigassem entre si. Os cachorros corriam em volta da casa e latiam toda vez que passavam em frente à janela do quarto. E Laura se revirava na cama sem conseguir fechar os olhos.



O dia também não tinha sido dos melhores.



Pedro foi brincar sozinho por um tempo. Assim, sem justificar nada, simplesmente foi.



* 



Ele não era muito de justificativas. Na verdade, vivia o mundo dele, no tempo dele, do jeito dele e com as coisas dele. Coisas! Coisas, e não pessoas. Pedro não era muito de pessoas. Lembrava do resto da existência humana apenas quando estava cansado de seus brinquedos antigos e achava que precisava de novos.



Na maioria das vezes, Pedro não via necessidade em olhar para os lados e ver o outro. Até porque ele era um menino muito esperto e sabia que para conseguir ver o outro, teria que olhar para si mesmo antes. Nossa... e olhar para dentro dói muito, você não acha?



O menino fazia questão de considerar que seu mundo limitado já era o mundo inteiro. Isso o poupava de muitos esforços e responsabilidades. Super confortável! Então, apenas continuava brincando, dormindo, dormindo e brincando.



Agora você pode estar se perguntando: se Pedro era assim, por que se aproximava de Laura tanto e todos os dias?



Eu não sei, nunca tive resposta para esta questão. Talvez Laura tivesse alguns brinquedos interessantes ou talvez Pedro apenas precisasse ter alguém para organizar seus brinquedos. Até porque organizar o que está desarrumado é muito desconfortável, não é? E Pedro gostava era de conforto.



Enfim, se você conseguir descobrir algo sobre isso, por favor, me avise.



* 



O fato é que Laura era diferente de Pedro, ela gostava de pessoas. Muitas pessoas. Várias pessoas. Infinitas pessoas. E Pedro era a pessoa que ela mais gostava entre todas as pessoas.



Mas não teve jeito, mesmo depois de muita insistência, naquele dia foi obrigada a rasurar seu cronograma e seguir com a brincadeira no canto dela. Uma chatice imensa!



Nem conseguiu brincar direito. Só pensava nos motivos que fizeram Pedro agir daquela forma: Será que ela fez algo? E se ele conhecesse novas amigas ou brincadeiras mais interessantes? Será que ela ficaria sozinha para sempre? Pedro não podia fazer isso com ela. Era injusto! Muito injusto! Injustíssimo! Por que justo com ela que sempre esteve ali no mesmo horário e local? Que imbecil! Ela gostava tanto dele e até parecia que ele gostava dela também, mas agindo desta forma e a obrigando a rasurar seu caderno, Pedro só podia estar agindo como um imbecil, você não acha? Um moleque imbecil!



Laura não encontrou sequer uma resposta para suas indagações, mas a noite chegou e ela continuou perguntando incessantemente. Pela primeira vez, em anos, sentiu que seu mundo de dentro e o espaço de fora estavam fugindo do controle. E isso era inaceitável para uma pessoa certinha como ela.



* 

Atitudes deveriam ser tomadas!



Levantou, calçou o primeiro tênis que viu e começou a correr. Pensou que talvez correndo, ela ficaria cansada e uma vez cansada, não pensaria em mais nada.



Ledo engano! Quanto mais corria, mais seus pensamentos cortavam sua cabeça e sufocavam sua respiração. Quanto mais se afastava de onde Pedro e suas novas brincadeiras repousavam, mais sentia que estava perto e isso a deixava bastante confusa.



Mas seguia firme apertando o passo e intensificando a força que colocava nas pernas. Tentava acompanhar a velocidade dos seus pensamentos, para, enfim, alcançá-los, e talvez quem sabe até pará-los, mas para isso era preciso correr rápido. E, então, corria rápido e mais rápido e muito rápido.



Naquele momento, já não via mais nada, nem ida e nem volta, nem Pedro e nem chão...



Caiu!

* 



Espatifada e quase sem ar, olhou para o alto pela primeira vez desde que saiu de casa e percebeu uma sombra de algo gigantesco vindo sedenta em sua direção.



Sentiu um forte arrepio dos pés à cabeça e quis sair daquele lugar de qualquer forma. Queria voltar, mas suas pernas já não mais a obedeciam. Começou a gritar por socorro, mas sabia que estava longe demais para ser ouvida. Fechou os olhos e apenas desejou que tudo aquilo acabasse.



Agora a criatura já estava ali, tocando na menina com suas articulações frias, sem remorso e nem escrúpulos. A jogava de um lado para o outro, fazendo com que ela agonizasse de dor. Laura chorava muito e a cada novo contato parecia que uma ferida se abria mais profundamente. Tentou buscar uma, duas, três saídas, mas a sombra tinha a forma dos seus medos e o cheiro das suas dores. Não havia saída. Então, desmaiou.



* 



No outro dia, acordou em seu quarto com as marcas das feridas no corpo. Perna roxa, braço dolorido e cabeça latejando. Não entendeu nada. Será que foi apenas um pesadelo? Mas parecia tão real...



Chegou a hora de brincar e Laura teve que ir até Pedro.



Naquele momento, já nem mais lembrava do dia anterior e das brincadeiras. Não estava mais indignada com a injustiça que sofrera. Na verdade, não sentia mais nada e nem estava muito a fim de brincar com ele. Qualquer rasura no seu cronograma era menor que a dor que havia sentido na noite que passou e isso sim era algo inquietante.



Havia uma excitação peculiar em Pedro naquele dia. Estava ansioso, mais interessado e querendo contar sobre um projeto supersecreto que ele estava desenvolvendo toda noite antes de dormir.



Laura não queria saber sobre projetos e nem que milagre tinha acontecido com Pedro para ele resolver tomar atitude com algo na vida.



Resolveu então compartilhar o que havia passado na noite anterior para tentar fazer com que ele parasse de falar um pouco.



Começou contando sobre o que percebeu de diferente já no seu quarto. Pedro não acreditou. Disse que saiu para correr. Pedro achou que ela estivesse louca por sair tarde da noite sozinha. Falou sobre o monstro gigante. Pedro disse que aquilo era apenas criação da cabeça dela. Mostrou as cicatrizes. Pedro olhou atentamente para todo lugar que Laura indicava em seu corpo e no final disse: não estou vendo nada, você deve ter se machucado sozinha sonhando à noite. E mudou de assunto.  



Como Pedro não conseguiu enxergar o que estava na cara dele? Laura mostrou e explicou tudo. Será que ele não prestou atenção, não conseguiu ouvir ou simplesmente quis se fazer de cego? Pedro estaria com aquela cegueira branca? Ela ouviu dizer que muitos adultos têm isso, mas ele definitivamente não era adulto. Garoto insensível e egoísta...



Laura desistiu.  Lembrou novamente da noite anterior e sentiu todas as dores mais uma vez. Será que este monstro voltará nesta noite? Se sim, desta vez não encontraria Laura desarmada. Nunca mais!



* 



Começou a estruturar seu plano para capturar esta criatura maligna. Desenhou, pesquisou algumas técnicas, escreveu e focou toda a sua energia nesta missão. Não precisava mais de Pedro. Agora não entendia nem como conseguiram rir tanto juntos nos momentos das brincadeiras. Naquele momento, ele já não era mais nada.



Laura se sentia forte, invencível e mais correta do que nunca. Naquela noite, nem quis saber se encontraria ou não a tal criatura, simplesmente saiu de casa e foi à luta.



Agora você me pergunta: como Laura conseguirá matar esse monstro tão poderoso? À tarde, gastou um bom tempo na TV procurando encontrar soluções. Foi quando, em um jornal entediante que sua mãe assistia, viu uma reportagem sobre poluição e gases tóxicos. Mexeu no galpão antigo de sua casa e encontrou muita coisa podre. Era isto! Ninguém resistiria à tanta toxidade.



Correu novamente, mas dessa vez não corria de nada e nem ninguém. Simplesmente queria com todas as suas forças encontrar aquela repugnância com formato de gigante para vingar toda a dor que havia sentido na noite passada.



E lá estava.



Laura sem pestanejar foi logo lançando um forte jato com o maior número de gases tóxicos possíveis, o que fez com que a forma estranha da criatura fosse inchando e aumentando ainda mais de tamanho. A menina ficou um pouco assustada, mas não desistiu da competição e continuou lançando jatos mais fortes e destruidores.



O monstro se encheu mais e tomou proporções estranhas. Era até desconfortável olhar para ele naquele momento, porque quanto mais inflava, mais ia ganhando traços familiares para Laura. No começo, pareceu algum primo distante, depois viu os olhos de sua mãe, desviou o olhar e viu uma cópia dela mesma, só que maior e monstruosa. Por fim, notou que havia um corpo magro voando no meio da fumaça toda e parecia muito alguém que ela não queria descobrir. Uma agonia sem fim!



Mas Laura não parou, sustentou seu desconforto e continuou enchendo aquele, agora ainda maior, monstro. Colocou a última força, fechou os olhos e ouviu um estouro gigantesco.



Será que acabou? Esperou três segundos e abriu seu olhar para a vitória.



No entanto, ao abrir os olhos só conseguiu focar em um ponto distante entre a fumaça que fez com que seu corpo estremecesse por completo.



Forçou seus olhos e, enfim, a imagem que preferia jamais ter visto.



Lá em cima, no topo daquela imensa montanha que só sabia cutucar as feridas de Laura, estava Pedro. O corpo magro que havia visto em meio às fumaças era dele; frágil, cansado e sufocado pelas cinzas. A forte corrente de ar que o carregava desacordado pelo ar poluído, lançou o menino violentamente contra o chão.



Neste momento, Laura tentou gritar, mas não teve forças. Procurou pela sua respiração, mas não encontrou ar no ambiente. No lugar daquela gigante criatura monstruosa, viu a casa na árvore de Pedro. Pensou se não era lá que ele estava organizando seus novos projetos. No lugar das feridas mexidas e consequentes dores sentidas por Laura, restou um estranho, desconhecido e profundo vazio. Tudo era silêncio.



* 



A menina se lembrou de todos os fatos. Soube como havia se enroscado nos galhos e caído daquela árvore; da raiva cega que sentia naquela noite quando saiu para correr e de como feriu Pedro, mesmo sem intenção, mesmo tentando acertar, tal como as certinhas.



Laura alimentou o monstro com toxidade e de uma certa forma ele a satisfez em troca. Pedro não fez nada, ele não era muito de fazer. Então, o drama esteve presente e junto dele a emoção que há muito tempo não sentiam no tédio das horas longe das brincadeiras.



Providencial, eu diria. A dor é uma ótima refeição para os devaneios dos desajustados, você não acha?



E aí eu pergunto: de quem é a culpa?



Novamente não sei essa resposta. A verdade é que aqui temos apenas um conto, mas posso dizer que já me cansei profundamente dessa história. Demoramos tanto para chegar a este ponto final e agora parece algo interminável, né não? Vamos acabar com isso logo então?



Eram duas crianças, amadores na arte do amor e perdidos no descompasso da vida.



O resto terei que deixar para vocês decidirem. Por gentileza, contem-me o desfecho em uma outra oportunidade. Ou apenas falem sobre algo melhor, sabe? Um doce de banana, uma música do Caetano ou o dente de leite que acabou de cair da boca da sua filha. Qualquer coisa vale mais do que todo esse tempo colocando dores e amores na mesma frase. A rima é boa, mas o fim não. Peço desculpas por isso. Até mais ver! 




 * Participou do Curso de Escrita Criativa (Turma 1/2018) da Prosa - Cursos e Consultoria

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